Sob a Pele

stars5Under the Skin (2013). Escrito por Jonathan Glazer e Walter Campbell. Dirigido por Jonathan Glazer. Com Scarlett Johansson, Adam Pearson, Jeremy McWilliams e Paul Brannigan.

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Jonathan Glazer é um cineasta que sabe construir com excelência a atmosfera de suas histórias. Depois da tensão constante de Sexy Beast e da melancolia e opressão de Reencarnação, o magnífico Sob a Pele evoca sensações não tão claras, pois, ao contrário de suas obras anteriores, não possui uma história bem definida. Utilizando principalmente o visual para comunicar seus subtextos e, independente do significado que encontrarmos para o que vemos na tela, a agonia e a estranheza são constantes nas imagens inesquecíveis construídas pelo diretor.

Livremente baseado no livro de Michel Faber, o roteiro escrito por Glazer ao lado de Walter Campbell traz Scarlett Johansson como uma criatura que, tomando a forma humana, “caça” homens solitários na Escócia e os leva a uma cabana onde eles encontrarão um misterioso destino. O que exatamente acontece com eles ou mesmo as origens da protagonista são deixadas a cargo do espectador – o importante é que, como ilustram as luzes que abrem o longa enquanto os acordes sinistros dão lugar aos exercícios vocais da criatura aprendendo a soar humana, a protagonista acabou de chegar à Terra.

A partir de então, acompanhamos sua busca por homens cujo desaparecimento não será percebido de imediato, e é perturbador perceber como a expressão completamente desprovida de emoções rapidamente dá lugar a sorrisos carismáticos quando ela fala com um alvo em potencial com um sotaque apropriadamente pouco definido. No decorrer de sua missão, a criatura começa a mostrar efeitos de sua estadia em nosso planeta e a modificar seu comportamento.

Um possível motivo disso seria seu encontro com um homem cujo rosto é marcado pela neurofibromatose (interpretado de forma tocante por Adam Pearson, que realmente sofre da doença – algo muito bem vindo e ainda raro na indústria cinematográfica na hora de retratar personagens com deficiências ou deformações físicas). Com ele, a criatura tem sua mais sensível conversa até então com uma de suas vítimas, e faz o possível para deixá-lo à vontade, mencionando, por exemplo, a maciez das mãos dele. Assim, as motivações dela para levar aquele homem a sua cabana já se diferenciam das ocasiões anteriores.

Na melhor e mais interessante atuação de sua carreira até agora, Scarlett Johansson evoca com perfeição a estranheza de sua personagem e a forma realmente alienígena com a qual ela se movimenta, frequentemente se esquecendo, por exemplo, de mexer os braços enquanto caminha – e, quando o faz, é de forma calculada. Ainda pouco acostumada a seu disfarce de mulher humana, é admirável como a atriz consegue passar a impressão de ser uma estranha em seu próprio corpo, ao mesmo tempo colocando-o completamente a serviço da personagem – se ela utiliza sua beleza para atrair os homens, também vemos seu corpo nu em uma cena sensível em que ela examina sua forma humana com interesse e maravilhamento. Construindo uma performance impecável, Johansson toma as rédeas de seu próprio corpo, e é importante notar que, enquanto obviamente linda, ela surge aqui, claro, como uma mulher real, sem os retoques das capas de revistas ou a preocupação pelo ideal inalcançável propagado pela mídia.

É sintomático, também, que a criatura cuja beleza é o suficiente para fazer seus alvos ignorarem os perigos da situação surja ela própria como um ideal inalcancável, afastando-se cada vez mais enquanto suas vítimas (e seus pênis eretos) sequer notam estarem mergulhando na escuridão enquanto caminham em direção a ela. Mais perturbadora do que propriamente sensual, a escolha de uma atriz cuja beleza constantemente ofusca sua atuação para este papel mostra a intenção de Glazer (e, claro, da própria Johansson) de realmente utilizar o corpo feminino para contar sua história, e não somente para agradar aos homens na plateia.

Afinal, a quantidade de roupas que Johansson deixa ou não deixa de usar está longe de ser a coisa mais importante ou interessante de Sob a Pele. As mudanças pelas quais a personagem passa durante o terceiro ato são perturbadoras e grandiosas, e discutem o que constitui a humanidade. Enquanto um cachorro se afoga, levando uma mulher e, em seguida, seu marido adentro do mar agitado, ela observa com uma expressão de leve curiosidade (desconcertante em um rosto que, afinal, parece humano), da mesma forma que observaríamos um inseto tentando contornar um obstáculo. Principalmente após seu encontro com o personagem de Pearson, ela passa a descobrir e a buscar a humanidade em si mesma, o que logo revela-se uma empreitada impossível, já que ela, afinal, está apenas vestindo a pele de um ser humano.

Assim, o cenário desolado da Escócia rural e da cinzenta Glasgow mostra-se ideal, já que, ao som da  trilha de Mica Levi, surge como um lugar solitário, desesperador e alienígena. Naquele ambiente, a protagonista descobre-se isolada e sem ter para onde ir, pois já não é mais a criatura fria e cujo único objetivo era atrair homens a sua cabana.

Mantendo-se perturbador até sua conclusão, Sob a Pele é, então, uma obra inesquecível e incomum que, independente dos significados encontrados para suas metáforas e visuais, permanecerá na mente de quem o assiste por muito tempo e, melhor ainda, oferece a promessa de novas descobertas a cada revisitação.

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2 comentários

    1. Obrigada, Maurício! Acompanho o Razão de Aspecto então fiquei muito feliz por ouvir isso de ti. E, realmente, muitas pessoas fogem de filmes como Sob a Pele, o que é uma pena.

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