Garota Exemplar

stars5Gone Girl (2014). Escrito por Gillian Flynn. Dirigido por David Fincher. Com Rosamund Pike, Ben Affleck, Carrie Coon, Neil Patrick Harris, Kim Dickens, Tyler Perry, Patrick Fugit, Emily Ratajkowski e Casey Wilson.

gonegirl

Um thriller complexo e personagens cheios de características que os distancia dos tradicionais “mocinhos” dos cinemas – a especialidade de David Fincher encontra um par perfeito em Gillian Flynn, cujos três livros publicados até agora trazem histórias pesadas protagonizadas por anti-heroínas que desafiam a concepção hollywoodiana do que as mulheres podem ser.

Em Garota Exemplar, Nick Dunne (Ben Affleck) descobre, na manhã de seu aniversário de casamento de cinco anos com Amy Elliott Dunne (Rosamund Pike), que a esposa desapareceu. Logo, a investigação liderada pela Detetive Boney (Kim Dickens) começa a apontar o próprio Nick como provável assassino da mulher. A narrativa traz o ponto de vista dos dois protagonistas: o de Nick, a partir da manhã do desaparecimento; e o de Amy, contando através de seu diário como eles chegaram àquele ponto. E é melhor não ter mais informações sobre a trama antes de assistir ao filme, já que é a forma inteligente e complexa com que o mistério é explorado – que vai além das (ótimas) reviravoltas – que torna o longa genial.

Fincher e sua direção precisa exploram ao máximo o complexo roteiro assinado pela própria Flynn. A montagem de Kirk Baxter é o complemento ideal, utilizando fade outs que evidenciam as informações ainda fora de nosso alcance e trazendo cortes inspirados como o que vai do beijo de Amy e Nick ao momento em que ele tem seu DNA coletado para a investigação policial. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, por sua vez, evoca toda a tensão e urgência das cenas. Já o design de produção acerta ao elaborar a caligrafia de Amy, como vista em seu diário, de forma precisa e cuidadosa, e ao estabelecer a falta de calor humano da casa dos Dunne, repleta de espaços vazios – ao contrário da pequena casa da irmã de Nick, que realmente se parece com um lar. Seja andando por um corredor, pela cozinha cuidadosamente decorada ou pelo pátio deserto, Nick frequentemente passa a sensação de estar perdido, de não se encaixar, de não saber para onde ir.

A excelência técnica, então, dá espaço para o elenco brilhar. Rosamund Pike, narrando com sua voz calculada, fria e sussurrada no melhor estilo femme fatale, traz uma precisão indispensável para a construção de sua personagem, uma mulher que nunca é realmente ela mesma, mas uma das versões que ela interpreta de acordo com sua audiência — a esposa perfeita para Nick; a filha dedicada para seus pais, que transformaram sua infância em uma série bestseller de livros infantis, “Amazing Amy”, e que sempre escreviam a Amy fictícia como estando um passo à frente da Amy verdadeira; a filha adorada pelos pais para a imprensa. Ben Affleck faz de Nick um homem que tenta disfarçar sua profunda insegurança – lidando, assim como a esposa, com sua versão de falta de identidade. O elenco todo está em sua melhor forma: Connie Coon, como a irmã gêmea de Nick, é um complemento essencial para que sintamos alguma afeição pelo personagem, e até mesmo Tyler Perry consegue impressionar como o advogado especialista em casos impossíveis que também sabe a importância de jogar com a opinião pública em situações como a de Nick.

Afinal, além de discutir a instituição do casamento e a forma como construímos versões idealizadas de nós mesmos com o intuito de conquistar (ou manter) alguém, Garota Exemplar ainda traz um retrato atual da cada vez maior espetacularização do jornalismo e da forma como o noticiário consegue pular para a próxima vítima/suspeito e “esquecer” tudo o que falou do alvo anterior, pois não há preocupação com as pessoas envolvidas – apenas com o espetáculo. Assim, a mídia é capaz de criar uma longa narrativa em cima de algo como um sorriso automático, e de comentar extensivamente a imagem de alguém chorando.

[A leitura deste próximo parágrafo não é recomendada para quem ainda não viu o filme/leu o livro e quer evitar spoilers] Um conto sobre como as expectativas que colocamos em nós mesmos e sobre o que outros projetam sobre nós é perigosa – elevada à décima potência -, a obra acerta – e se difere da grande maioria das histórias contadas por Hollywood – ao inserir o ponto de vista de Amy, uma personagem que seria apenas um cadáver filmado de forma etérea para escancarar a beleza de rosto apagado e de corpo sem vida de Amy para a maioria dos cineastas. A existência de Amy desafia as etiquetas que os realizadores e o público costumam utilizar para definir suas personagens femininas, e ela se estabelece como uma anti-heroína icônica que se torna ainda mais importante por ter sido criada por uma mulher. Buscando construir sua fachada de esposa perfeita, dócil, dedicada, ela absorve todas as fantasias masculinas que repudiam mulheres “complicadas, inconvenientes”, e utiliza a imagem de mulher bonita, branca, rica para construir sua imagem de vítima para todo o país e, mais tarde, a imagem de mulher bonita, branca, rica, sobrevivente e mãe para comover a plateia que a vê retornar ao lar de forma milagrosa.

[A leitura deste próximo parágrafo não é recomendada para quem ainda não viu o filme/leu o livro e quer evitar spoilers] Da mesma forma, é a pressão para manter a imagem de homem seguro, descolado, inteligente que destrói Nick. Amy resolve colocar seu plano de desaparecimento em prática quando descobre a traição do marido – não como o arquétipo da “mulher rejeitada em busca de vingança”, mas porque ela não suporta a ideia de que sua cuidadosa atuação não esteja mais funcionando, e que Nick não esteja mais se esforçando para ser o marido que ela deseja. E ela decide voltar porque não suporta vê-lo virando o jogo e conquistando sua plateia – Amy deve sair vencedora. E ela vence ao compreender antes do marido que os dois só podem viver ao lado um do outro e que ninguém mais serviria. [fim dos spoilers]

Garota Exemplar é um filme estranhamente divertido e que mantém o espectador em tensão constante. Além disso, constrói com cuidado magistral seus personagens e seu mistério, transformando-se em uma obra que merece ser revisitada diversas vezes. Apenas a atuação de Pike já traria a vontade de se assistir diversas vezes ao filme, cada vez desvendando novas nuances, momentos sutis e olhares de Amy. Somando isso ao intrincado trabalho de Fincher e Flynn, a satisfação futura de redescobrir o filme só aumenta.

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1 comentário

  1. Bom texto. Mesmo já tendo lido o livro antes, a Amy da Pike me impressionou muito. Desde a primeira cena dela, dava pra notar que ela não seria mais uma loira bonitona “cool girl.” Um personagem inesquecível. Pike está impecável.

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