Sniper Americano

stars2American Sniper (2014). Escrito por Jason Hall. Dirigido por Clint Eastwood. Com Bradley Cooper, Sienna Miller, Kyle Gallner, Ben Reed, Keir O’Donnell e Marnette Patterson.

AMERICAN SNIPER

Em Sniper Americano, o diretor Clint Eastwood se mostra tecnicamente competente ao criar, por exemplo, tensas sequências de ação, em um filme carregado por uma excelente atuação de Bradley Cooper. O problema é que os realizadores – e, portanto, a obra – transformam a psicopatia do protagonista em heroísmo e, assim, um filme que poderia ser um forte comentário à sede de guerra e ao patriotismo cego dos Estados Unidos se torna propaganda e glorificação de um conflito ignorante.

Baseado nas memórias do verdadeiro Chris Kyle, o sniper mais eficiente (ou seja: que matou mais gente) da história do exército norte-americano, o filme acompanha o personagem desde a infância até seu alistamento no exército após os atentados do 11 de setembro. Depois de quatro temporadas no Iraque, Kyle volta para casa, onde tenta se reintegrar à rotina da esposa e dos filhos pequenos enquanto lida com os efeitos da guerra sobre si.

E o que perturba Kyle não são os horrores que ele presenciou ou as vítimas de seu alvo certeiro – que incluem uma criança, a primeira pessoa que vemos o personagem matar. Kyle se arrepende de não ter conseguido salvar mais de seus colegas de exército — ou seja, de não ter matado mais gente. Ou melhor, “selvagens”, como ele se refere aos iraquianos repetidas vezes: além de comprar a falácia de que não há honra maior do que defender seu país através da guerra, Sniper Americano ainda propaga a visão xenofóbica de que todos os iraquianos são inimigos e que terroristas se escondem em cada canto do país.

É interessante perceber, contudo, que os sinais do vilanismo de Kyle estão todos presentes: na cena de abertura do filme, durante os segundos que ele tem para decidir se vai atirar ou não em uma criança que pode estar carregando uma granada, os montadores Joel Cox e Gary Roach cortam para Kyle na infância, segurando uma arma agora apontada para um cervo. Ao acertar o animal, o pai do garoto comemora: “Um dia, você será um ótimo caçador”. Quando adulto, o objetivo de Kyle é o mesmo: caçar e atingir seus alvos. Em seguida, ao reconhecer o filho como um protetor dos indefesos (“Há três tipos de pessoa: lobos, ovelhas e cães pastores”), o pai declara para Kyle que ele “sabe seu propósito” – momento em que a montagem retorna ao presente, trazendo o protagonista com um olhar orgulhoso e andando com a cabeça erguida.

Afirmando sem nenhuma hesitação que os Estados Unidos são “o melhor país da Terra, Kyle dá outro exemplo óbvio de sua psicopatia e de seus reais interesses na guerra durante uma conversa com um terapeuta do exército, após seu retorno para casa. Quando o protagonista menciona que seu único arrependimento é o de não ter salvado mais de seus companheiros, o médico afirma que ele pode ajudar os soldados de outras formas, ali mesmo nos Estados Unidos – por exemplo, voluntariando em hospitais que recebem os feridos da guerra. Kyle solta um seco “uhum”.

O caráter de Kyle é capturado por Bradley Cooper, que declara a grandiosidade dos Estados Unidos sem questionamentos, enquanto cuidadosamente olha através de sua arma atrás de iraquianos para matar. Fosse um filme mais complexo, mais ousado, Sniper Americano poderia ser uma forte crítica ao patriotismo cego dos norte-americanos, que abraçaram de imediato uma guerra desnecessária, estúpida e ignorante em um país que sequer era responsável pelos atentados e que consideram defender o país na linha de frente a maior honra de todas. Ao comprar o suposto heroísmo de Chris Kyle, porém, a obra torna-se apenas mais um dos fatores que continuarão vendendo esta mensagem aos jovens dos Estados Unidos – assim, quando outro país inimigo surgir, não faltarão voluntários.

E que grande filme esta obra poderia ser: Eastwood, seguro na direção, investe em sequências de ação tensas e perturbadoras, auxiliado pela fotografia de Tom Stern, que mergulha os personagens na poeira, transformando o conflito em um deserto inescapável. Enquanto isso, a trilha sonora pesada é bem utilizada, contribuindo para a tensão que percorre o longa.

Mas, méritos técnicos à parte, a Arte não existe em um vácuo e pode ser mais complexa do que isso. Cineastas vêm contando histórias de anti-heróis e vilões há décadas sem que o filme compre seu ponto de vista. Os realizadores de Sniper Americano, porém, são mais alguns dos norte-americanos seduzidos pela narrativa do homem comum que se transforma em herói e, assim, criaram um filme desprezível que, como mostram as seis indicações ao Oscar, apenas mostram a necessidade que os Estados Unidos sentem de glorificarem a si mesmos.

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